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Para uns delicados ouvidos analógicos como os meus é reconfortante verificar como, a par do vertiginoso processo de desmaterialização da música e do crescimento exponencial do seu consumo através das de plataformas de streaming como o Spotify, Apple Music ou o Google Play, o mercado do vinil vai-se afirmando como uma consolidada alternativa para os verdadeiros melómanos e audiófilos. A comprová-lo basta verificar o espaço a ele reservado nas lojas Fnac, já para não falar da proliferação de novas lojas de discos nos grandes centros urbanos, ou pelo facto da versão em vinil de "Black Star" de David Bowie ter vendido globalmente perto de 500.000 cópias. No entanto convém realçar que este crescimento terá sempre como limitação os custos monetários necessários para a aquisição de um competente sistema de reprodução: um bom gira-discos com uma boa célula, um amplificador competente com entrada “Phono” e umas colunas adequadas ao espaço em que vão tocar. De resto faz-me alguma confusão a profusão de oferta de pequenos gira-discos de má qualidade, a maior parte com um atraente design “vintage”, que constituirão um logro para o consumidor, que rapidamente se perceberá que, para além de estragarem dos discos, não preenchem os valores mínimos de qualidade sonora comparativamente a qualquer pequeno dispositivo de reprodução digital, até o smartphone mais básico.
O maior (16 polegadas, 78 rpm) é o já referido disco da Emissora Nacional "Desfile da gente do mar" gravado em 1947. Os mais pequenos são um o Kiddiphone 6 polegadas e um minúsculo disco castanho de 78 RPM com 4 polegadas com rimas infantis provávelmente parte de um brinquedo.
Enorme disco Pathe (14 polegadas) 90 rpm: "Madeleine" (A.S. Petit) Polka pour piston 1905 (?). Com leitura por agulha de safira e rotação invertida (espiral de dentro para fora). Só é possível escutar em aparelhos próprios da marca francesa.
Provavelmente dos maiores discos que existem: com 16 polegadas e 78 rpm, esta é uma gravação da Emissora Nacional "Desfile da gente do mar" - 1947. Requer equipamento apropriado para escutar, que não possuo.
Já disse noutras ocasiões como tenho dificuldade em escrever sobre discos que não gosto, e como a coisa piora muito quando me apaixono por algum – talvez com receio do ridiculo que são sempre as declarações de amor. É por isso que venho adiando estas palavras sobre Shadows in the Night, o 36º disco de Bob Dylan que nos surpreende com a interpretação nasalada e displicente de dez temas criteriosamente repescados do reportório de Frank Sinatra, um seu antípoda da música popular.
A estranheza de Shadows in the Night adensa-se ao constatarmos que a grande orquestra tipica de Sinatra foi substituída por uma pequena banda em que se destaca uma desconcertante pedal steel guitar de tonalidades havaianas. No mais, os arranjos são suportados pelo dedilhar da guitarra acústica de Bob Dylan, um contrabaixo e metais esporádicos. O resultado é o encantamento, que ganha laivos de submissão à vigésima audição. Produzido por Jack Frost que o grava "ao natural" - sem remisturas (hoverdubs), nem filtros - a coisa resulta mágica, como se os rapazes estivessem ali mesmo a cantar, a tocar, a respirar, para nós. O modo como foi captado o som produz um extraordinário efeito de presença física, potenciado se o álbum for reproduzido em formato vinil numa boa aparelhagem.
O facto é que um mês depois de ouvir Shadows in the Night, até parece que temas doces e amargos como "The Night We Called It a Day" , "Why Try to Change Me Now", "Some Enchanted Evening", "What'll I Do" foram criados para a voz de Dylan, melancólico anti-heroi, cowboy rouco e desajeitado, e não para um glamoroso romântico do cinema e do music hall como Sinatra era, com a sua voz poderosa e sensual. Se lá em cima já tiveram a desfaçatez de lhe mostrar este álbum, ele certamente irá perdoar-me o atrevimento desta opinião. Ironicamente, parece-me que a interpretação de "I'm a Fool to Want You" é o melhor tributo que Bob Dylan poderia fazer ao seu autor, que um dia disse do Rock 'n' Roll ser “a música marcial feita para delinquentes, cantada por cretinos.”
De resto, o mais importante é comprar este álbum, e usufruir com deleite da Graça de se ter o coração perto duns bons ouvidos.
A credibilização entre os melómanos da indústria fonográfica emergente no início do Século XX dá-se muito por conta de Enrico Caruso quando este prodigioso tenor italiano concede finalmente registar a sua voz, não para Thomas Edison mas para Emile Berliner e a sua The Gramophone Company para quem gravou múltiplos discos entre 1903 e 1921. Os cilindros de cera estavam definitivamente destronados. Aqui partilho uma pequena pérola recentemente adicionada à minha colecção, nada menos que a área “Viva il vino spumeggiant” da Ópera Cavalleria Rusticana de Pietro Mascagni interpretada por Enrico Caruso, gravado em Inglaterra em 1905 sob a chancela Gramophone Concert Record G.C. 52193 (rótulo cor de rosa).
É no mínimo estranho como o recente interesse do jornalismo pelo Vinil e colecções de discos patente em diversos artigos e reportagens publicadas ultimamente se circunscreva à segunda metade do século XX, como se a motivação para esse olhar fosse tão só explorar a nostalgia dos leitores mais velhos por esse objecto icónico. Mas acontece que mundo não começou com a formação do nosso umbigo.
Para contrariar essa perspectiva míope aqui vos apresento uma preciosidade, não só pela idade e rareza, mas pela excelência patenteada neste “Fado da Pallida Madrugada” de 1906 interpretado por Manassés de Lacerda um dos pioneiros da Canção de Coimbra. A investigação desta matéria deverá contemplar as suas origem nos finais do século XIX, tanto mais que a história e inventariação do espólio fonográfico nacional tem muito ainda por fazer.
Carmen Miranda, ou a “brasileira” de Marco de Canaveses (1909 -1955), estrela de Hollywood é referência obrigatória do espólio fonográfico da primeira metade do século XX. Aqui partilho "Upa Upa" do filme "Brazil" em que a artista canta uma marcha acompanhada com o Bando da Lua, um tema de Ary Barroso e Ervin Drake dum Disco DECCA - L3729 gravado em 1945.
Este e muitas outras gravações portuguesas antigas podem ser escutadas aqui.
Uma peça de colecção rara... Amália no Café Luso gravado em Dezembro de 1955 e publicada em 1974 dois discos de vinil mono com requintada caixa arquivadora e brochura.
Belo achado este que adquiri há dias numa feira de velharias: um exemplar dos primeiros discos em vinil gravados em mico espiras a 45 rpm com 7 polegadas, formato revolucionário lançado pela RCA Victor no final dos anos quarenta. Apresentado num simples envelope de papel pardo à moda dos velhos 78 rpm em baquelite, sem grande sofisticação no grafismo e gravado em plástico encarnado, trata-se Concerto de Varsóvia de Addinsell tocado em duas partes pela Boston Pops Orchestra dirigida por Arthur Fiedler. Este single atingiu o 4º lugar das tabelas da Billboard em Outubro de 1949 na categoria de “Classical Sinlges”.
RCA Victor Record
“45” RPM
The Finest Record Ever Made
A mais recente criação de Beck, o álbum Morning Phase - tão aclamado pela crítica, tem o tempo indicado para um LP à antiga e foi nesse formato que o adquiri. Concedo que é um disco muito inspirado e agradável de se ouvir, faltando-lhe talvez alguma irreverência, que ao que julgo entender se fica pela exploração desse mesmo “revivalismo analógico”. É precisamente essa a curiosidade que me motiva este post; de como a versão em mp3 que é fornecida com o vinil, através dum cupão com um endereço web e um código, vem numa mistura que ostenta com subtileza os estalidos da agulha a pousar e levantar do disco ao principio e no fim de cada lado (no caso, virtual) e reproduz aqui e ali aquela suavíssma crepitação dos efeitos electroestáticos do contacto da agulha. Ora a ideia, apesar de divertida, parece-me um tanto absurda senão até algo ingénua, já que são justamente esses inevitáveis ruídos de fundo, “sentidas” pelas mais sensíveis safiras, o "Calcanhar de Aquiles" dos melhores gira-discos.
O que será feito destes discos “double face” os “melhores em nitidez e duração” e da referenciação biográfica de todos estes “auctores nacionais” aqui anunciados pela marca “Simplex” de J. Castello Branco na revista Ilustração Portuguesa de Abril 1908?
Milú, e "A Minha Casinha" de Silva Tavares - António Melo
Do filme "O Costa do Castelo"
Orquestra de Fernando Carvalho
Parlophone
DP 18
Londres
Esta é a minha mais recente aquisição, "Saint Louis blues" de W.C. Handy (1873 -1958) interpretada pelo quinteto "Original Dixieland Jazz Band", um Blues cantado ao ritmo Foxtrot mas que nos remete claramente para o Jazz, estilo que então despontava nas imediações de Nova Orleans. Rotulada como Fox - Trot, esta gravação 8772-A His Master’s Voice - Victor de 1921 é tida como a primeira versão registada com acompanhamento vocal, no caso interpretada por Al Bernard (1888- 1949). Alfred A. "Al" Bernard foi um popular cantor de vaudeville “blackface singer” de New Orleans, Louisiana cognominado "The Boy From Dixie" que teve o seu auge de popularidade nos anos dez e vinte do século passado. Repare-se no estilo gingão da vocalização "à negro” e nas harmonias Blues que hoje nos são familiares e no arrojado improviso da corneta no final.
Com um toque inicial de “Tango”, ritmo muito em voga na época, este delicioso tema "Saint Louis blues" de W.C. Handy, conhecido como o "Hamlet do jazz", foi o primeiro grande sucesso de uma canção Blues, e ainda hoje é um clássico do reportório jazz, tendo sido interpretada ao longo dos tempos por diferentes artistas como Louis Armstrong e Bessie Smith, passando por Count Basie, Glenn Miller, Guy Lombardo ou a Boston Pops Orchestra.
Álbum para discos de 10 polegadas de goma-laca (78 rpm). Com capacidade para arquivar 10 discos que correspondem a 20 músicas com uma média de 3 minutos cada. Ao todo cerca de 3 kg música.
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