Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


Estantes vazias

por João Távora, em 01.06.16

size_810_16_9_samsung-gear-vr-14-09-03.jpg

Vivemos tempos confusos por estes dias não só na política. Acho que podemos afirmar que experimentamos quase diariamente progressos tecnológicos que alteram de sobremaneira o nosso modo de vida e a percepção da realidade. A sofisticação da computação, a era digital na internet de banda larga, a desmaterialização da informação, a vertiginosa sensação de protagonismo e liberdade por via da auto-edição nas redes sociais, colocam-nos desafios e incógnitas que não deveriamos subestimar. Pela minha parte, o meu profundo apego aos processos analógicos de registo de informação, como o livro, o jornal em papel, a gravação sonora em vinil e noutros suportes físicos, não me impediu de nos últimos 30 anos acompanhar com fascínio a evolução na tecnologia que aqui nos trouxe, pelo que julgo que isso me concede alguma imparcialidade na abordagem que aqui pretendo fazer ao fenómeno da “estante vazia”. 

Se até há bem pouco tempo, a análise duma estante da casa de alguém nos daria impressões precisas sobre o seu perfil sociocultural, na linha do “diz-me o que lês, dir-te-ei quem és”, a tendência cada vez mais consolidada para a desmaterialização de bens culturais como o livro e o disco em informação digital invalidam hoje em dia essa forma de interpretação: chamemos-lhe o fenómeno das “estantes vazias” que no meu entendimento contêm outras ameaças bem menos fúteis do que essa. Se é verdade que na actualidade um pequeno dispositivo pode conter em si uma grande biblioteca com toda a sorte de obras literárias, além de intermináveis horas de registos  musicais de toda o género com razoável qualidade na reprodução, o facto é que esta forma de consumo consolidou uma relação, já de si pessoal, numa dinâmica atomizadora da nossa sociedade - as pessoas não ficaram mais livres, apenas mais sós e desorientadas nas suas escolhas.
Daí que as prateleiras vazias, fruto duma mudança radical no consumo destes bens (cujo valor de facto reside no conteúdo e não no suporte), signifiquem uma quebra numa antiga tradição em que essa informação era legada graças à sua forma física. Ela estava disponível e palpável nos diversos ambientes em que todos crescemos e formámos a nossa personalidade. Por sorte minha cresci e desenvolvi-me rodeado de livros, jornais e revistas, que folheava atraido pela curiosidade, tomando assim contacto com realidades improváveis; já para não falar da muito boa música, cujo manuseamento dos discos (com capas atraentes e informativas) e a sua audição mais ou menos voluntária (o gira-discos ecoava pela casa fora) me influenciou o gosto e sofisticação de ouvinte.

Foi assim que os meus filhos cresceram, também eles rodeados de estantes cheias, discos, livros e jornais entreabertos que usufruíram nos espaços comuns da casa onde também partilhámos filmes, alguns dos quais estou certo permanecerão sempre como referência para eles. Como se reproduzirá este processo de transmissão de valores (porque é disso que se trata) nestes tempos de individualismo radical dos auscultadores e do ‘smartphone’ em que cada um constrói a sua biblioteca ou playlist – a lógica da ‘playlist’ no streaming digital é em si um tratado - num aparelho de bolso é para mim um enigma.

É por isto que eu receio que o fenómeno das estantes vazias deixará de denunciar uma pobreza cultural para significar um retrocesso civilizacional. Ou estarei enganado?

 

Crónica inspirada no artigo "Our (Bare) Shelves, Our Selves" de Teddy Wayne e publicada originalmente aqui

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 21:30

Coleccionador de sons (79)

por João Távora, em 19.04.16

Comédia ao caciquismo em Portugal gravada em 1906. Como bem sabemos a coisa piorou substancialmente depois de 1910.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 17:51

Fado Robles

por João Távora, em 24.03.16

Curioso é este disco, com uma interpretação anónima de guitarra solo do célebre “Fado Robles” no lado A - melodia composta em 1879-1880 pelo guitarrista-fadista e Sargento de Cavalaria J. R. Robles – e no lado B variações sobre o Fado Corrido, “Fado Corrido Maior”. Editado pela pouco conhecida marca Jumbo (ligada à editora alemã Odeon) que foi descontinuada em 1912 é de presumir que a interpretação das duas peças seja da autoria de Luís Petroline em gravações de 1910, segundo uma tese de Pedro Jorge, estudioso dos primórdios do Fado com quem tive o privilégio de trocar correspondência.

Este e muitas outras gravações portuguesas antigas podem ser escutadas aqui

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:02

A estereofonia e a alta-fidelidade

por João Távora, em 22.12.15

A estereofonia foi de facto um passo decisivo na história da indústria fonográfica e do áudio no caminho para a “Alta-fidelidade” (que era o nome que se dava à reprodução sonora tão próxima da realidade quanto possível). Entre os anos sessenta e os anos oitenta era relativamente comum encontrar em lugar de destaque numa casa de classe média/alta um bom sistema de som – que em abono da verdade nada tem a ver com os actuais artefactos para a criação de efeitos de “cinema em casa”. Pelo contrário, hoje em dia esse culto de perfeição atingiu o ponto mais baixo das últimas décadas: é pouco menos que lamentável a qualidade dos registos sonoros em ficheiros de compressão de áudio usados nos computadores, telemóveis e outras engenhocas tão populares entre as novas gerações.

Mas se é discutível que a desmaterialização do registo sonoro per si compromete a qualidade – nomeadamente quando utilizados ficheiros de compressão sem perda de informação (alta-resolução), a mesma será sempre comprometida pelo lado dos sistemas de reprodução "miniaturizados". O requinte da reprodução sonora exige alguma dimensão dos componentes da aparelhagem, pelo menos nas colunas. 

McIntosh-x-John-Varvatos-Custom-Built-SoHo-Audio-S

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 20:13

Sinatra, uma criação da industria fonográfica

por João Távora, em 12.12.15


Curioso como as mais variadas homenagens e tributos que por estes dias se fazem a Frank Sinatra não referem um ponto que me parece fundamental. A popularidade desta consagrada estrela mundial norte-americana é inteiramente fruto da poderosa indústria fonográfica que se desenvolveu estrondosamente durante a sua vida. Acontece que Sinatra não se distingue na arte da composição musical ou poesia mas exclusivamente ela sua sólida e aveludada voz barítono, que veio a ser difundida massivamente pelos quatro cantos do mundo através dos discos. Nenhum cantor anterior ao século XX poderia ambicionar tal façanha – vozes tão boas ou melhores não puderam ser registadas e desapareceram na penumbra do passado.

Não sou particularmente fã do estilo “romântico”, “esplendoroso” e “grandiloquente” de Frank Sinatra, e há um conjunto de pelo menos 12 canções que já não aguento ouvir por completa exaustão. Mas o facto de ele ter sido intérprete de eleição das canções mais marcantes e dos compositores mais brilhantes do século XX como o Jimmy Van Heusen,Cole Porter, Sammy Cahn ou George Gershwin torna-o um artista incontornável, imortal diria eu. O primeiro, fruto da tecnologia e indústria fonográfica.  

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

publicado às 19:14

Um fonógrafo do século XXI

por João Távora, em 24.11.15

O fascínio da tecnologia ao serviço da história: o "Archéophone" é utilizado para a reprodução e digitalização de todos os formatos de cilindros, poupando-os ao desgaste da leitura pelo método mecânico do fonógrafo original, este aparelho é passível de ser adquirido por encomenda. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 10:12

Por onde andam os cilindros de cera portugueses?

por João Távora, em 23.11.15

7 -Cilindro_Sociedade_Fonographica_portuguesa.jpg

"O ano passado tivemos uma doação de uma dúzia de cilindros portugueses, os primeiros da nossa colecção”.

Quando abordámos David Seubert para uma entrevista sobre o arquivo, os registos portugueses estavam entre os cinco mil que ainda aguardam digitalização através “de uma máquina francesa, o Archeophone, que torna possível reproduzir os cilindros sem os danificar”. Brevemente, porém, vamos poder ouvi-los." 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 10:02

Era assim a moda na época...

por João Távora, em 26.08.15

Voltando ao charme delicado dos cilindros de cera gravados aqui pode-se ouvir o tenor britânico Elliston Webb cantando melosa e ensonada balada "Sing me to sleep" de Edwin Greene. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:38

Barcelona 1903

por João Távora, em 24.08.15

Este trecho do “Terceto Final” de Fausto (uma ópera de Gounod muito popular na passagem do século) gravado em Barcelona em 1903 para a “The Gramophone and typewriter Ltd” de Berliner é muito interessante por congregar artistas consagrados numa altura em que a indústria fonográfica dava os primeiros passos. Bela prestação da vozes de Perello de Segurola, José Maristany e Giuseppina Huguet, acompanhadas ao piano que se ouve com dificuldade.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 20:10

O charme dos cilindros

por João Távora, em 22.08.15

Piadas do mestre rola.jpg

 

Rótulo de cilindro virgem (gravado em casa) - Família Cambournac "Só para homems", "Piadas do Mestre Rola" 26 xii 1915.

Seccção Infantil.jpg

Cilindro virgem Edison - Apesar de inaudível vale pela inscrição: "Secção infantil 1912" do lote da família Cambournac (minha mulher) gravado em casa.

 

Out of the box.jpg

 Out of the box

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 14:41

A Marselhesa

por João Távora, em 21.08.15

Eu que sou um pacato conservador, geralmente até gosto de canções revolucionárias talvez pelo seu lado romântico, uma estética a que ninguém é imune nestes dias de modernidade. Não é o caso da belicosa e feroz “Marselhesa” que os franceses adoptaram como hino, aqui numa performance de 1905 pela Garde Républicaine, gravada num cilindro de cera da minha colecção, que apesar de partido se consegue ouvir até meio.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 19:05

Brinquedo

por João Távora, em 20.08.15
 

My Edison Home Phonograph

Um vídeo publicado por João Távora (@jtavora) a

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 23:13

De volta aos cilindros

por João Távora, em 20.08.15

O Fonógrafo possui um charme insuperável. Aqui uma canção sentimental pela soprano australiana Marie Narelle acabadinha de chegar de Terras de Sua Majestade.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 20:10

O Gramofone, ou a triste história de Epifânio *

por João Távora, em 18.08.15

gramofone.jpg

 O Epifânio, o meu bom e inefável amigo Epifânio, sofria da neurastenia. É uma doença como outra qualquer, com a vantagem de ser atributo só da gente de algo. Tinha pelas maquinas falantes a mesma animadversão que Mafoma nutria pelo toucinho. E tanto assim que casou propositadamente com uma rapariga órfã de mãe, só para não ter que aturar, depois do grande nó, uma grafonola “Sogra”- uma das marcas mais na moda.

A par de outras madurezas de igual teor, que ele não fazia afixar por toda a parte, o Epifânio sofria também, e em suma, gramofonofobia- uma doença esquisita como um ralo.

Há dias, o Epifânio acordou mal disposto como burro. Tivera um sonho extravagante, pois caíra numa fábrica enorme desses aparelhos infernais, com buzinas que bocas de canhões e um som atroador – de pôr patético um santo. E, mal abriu os olhos, depois de se convencer da irrealidade do que acabara de observar, o Epifânio não teve tempo de recuperar a tranquilidade. Lá dentro, na sala de visitas, a vizinha Silveria conversava com a esposa, entusiasmada, eloquentíssima.

De que se tratava?

Pôs o ouvido à escuta e ouviu que o malvado do seu homem, aconselhado pelo Joaquim sapateiro que é uma boa rolha, lhe saíra de casa na véspera com o cordão que lhe custara uns centos, a maquina de costura, um conto e quinhentos em dinheiro que ela amealhara durante longos meses, e que o patife, para maior cumulo, nem sequer dissera “água vai”...

E por aqui abaixo uma lengalenga de tal ordem que o Epifânio – que nada tinha que ver com essas coisas, nem a esposa – ergueu-se do leito, vestiu-se num ápice e, enquanto o diabo esfrega um olho, pôs-se na rua.

gramofone.jpggramofone.jpggramofone.jpg

Mas estava escrito que nesse dia o Epifânio tinha que comer duas verdes com uma madura, como se diz em linguagem rasca.

Logo ao desembocar da artéria, mesmo na esquina, em casa das Vasconcelos, umas pequenas sirigaitas que tocam tudo – até piano – um gramofone, daqueles autênticos “Pathé-Freres”, antigo como o arroz de quinze, roufenhava um fado triste e sonâmbulo do nosso conhecido Menano.

O Epifânio não esteve com meias medidas. Mal supunha ele, porém, que mesmo em frente, num café qualquer, até aquecia silencioso e às moscas e aonde procurara refúgio, uma grafonola das pequenas agora acordava o espaço com um jazz destrambelhado e ensurdecedor.

Por pouco não deu em doido. Pagou o café, mesmo sem o tomar, e correu, rua abaixo como um tresloucado.

gramofone.jpggramofone.jpggramofone.jpg

 O Epifânio andou assim nesta contradança o dia quase inteiro, fugindo de Herodes para Pilatos e de Pilatos para Herodes. Em toda a parte, como se fora uma praga, lhe surgia a buzina de um gramofone, uma grafonola, um “Parlophoa” – em suma, uma dessas maquinas que o diabo inventara para lhe dar cabo do espírito, com certeza, e, não obstante todos os esforços nesse sentido, jamais nesse dia conseguia livrar-se delas.

  • Maldição!...- dizia ela com as mãos na cabeça e o desespero em catadupas.

Teve, por fim, uma resolução heróica, acertada, decidida. Depois de tanta volta, já cansado, o peito a arfar, só em casa acharia o repouso apetecido, agora que aquela rela da vizinha decerto acabar a conversa, pois havia demorado o dia inteiro a sua peregrinação.

E se melhor o pensou, melhor o fez.

 

Em casa do Epifânio...

A mulher - Ó homem, vens com uma tumba! Que te aconteceu?

Epifânio - Deixa-me. Uma grande desgraça! Uma tremenda desgraça!

A mulher - Credo! Nem pareces o mesmo. E eu que tinha uma novidade tão boa para te dar...

Epifânio - Uma novidade? Conta, para ver se me passam estes nervos. Estou que nem uma pilha.

A mulher- Queres saber, então?

Epifânio - Anda! Avia-te depressa. Que foi?

A mulher- Escuta, meu querido. Comprei hoje uma grafonola para os nossos serões...

 

O Epifânio, que tinha caído com uma sincope, faleceu repentinamente e no dia seguinte teve um belo enterro...

MAXIM

Sempre Fixe Semanário Humorístico - 13 - 5 - 931

 

* Reconhecido ao meu amigo Vasco Rosa, com uma vénia pelo recorte.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 10:41

Size matters (3)

por João Távora, em 17.08.15

size matters 3.jpg

 O maior (16 polegadas, 78 rpm) é o já referido disco da Emissora Nacional "Desfile da gente do mar" gravado em 1947.  Os mais pequenos são um o Kiddiphone 6 polegadas e um minúsculo disco castanho de 78 RPM com 4 polegadas com rimas infantis provávelmente parte de um brinquedo.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 17:28



A montante deste caprichoso prazer de coleccionar os sons antigos e de saborear sofisticados sistemas de reprodução sonora está uma enorme paixão. Neste blog que afinal é uma contradição de termos – uma plataforma de partilha digital em defesa do suporte analógico - presto tributo a essa que considero a mais divinal forma de expressão humana: a música.


O Autor

João Lancastre e Távora nasceu em Lisboa, que adora. Exilado no Estoril, alienado com política e com os media, é sportinguista de sofrer, monárquico, católico e conservador. No resto é um vencedor: casado, pai de filhos e enteados, é empresário na área da Comunicação e do Marketing. Participando em diversos projectos de intervenção cívica, é dirigente associativo e colabora em vários blogues e projectos comunicação política e cultural.

Instagram

Instagram




Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.


Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2013
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2012
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2011
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2010
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2009
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D

subscrever feeds