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Sinatra, uma criação da industria fonográfica

por João Távora, em 12.12.15


Curioso como as mais variadas homenagens e tributos que por estes dias se fazem a Frank Sinatra não referem um ponto que me parece fundamental. A popularidade desta consagrada estrela mundial norte-americana é inteiramente fruto da poderosa indústria fonográfica que se desenvolveu estrondosamente durante a sua vida. Acontece que Sinatra não se distingue na arte da composição musical ou poesia mas exclusivamente ela sua sólida e aveludada voz barítono, que veio a ser difundida massivamente pelos quatro cantos do mundo através dos discos. Nenhum cantor anterior ao século XX poderia ambicionar tal façanha – vozes tão boas ou melhores não puderam ser registadas e desapareceram na penumbra do passado.

Não sou particularmente fã do estilo “romântico”, “esplendoroso” e “grandiloquente” de Frank Sinatra, e há um conjunto de pelo menos 12 canções que já não aguento ouvir por completa exaustão. Mas o facto de ele ter sido intérprete de eleição das canções mais marcantes e dos compositores mais brilhantes do século XX como o Jimmy Van Heusen,Cole Porter, Sammy Cahn ou George Gershwin torna-o um artista incontornável, imortal diria eu. O primeiro, fruto da tecnologia e indústria fonográfica.  

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publicado às 19:14

Shadows in the Night - Bob Dylan

por João Távora, em 14.04.15

Shadows in the Night.jpg

Já disse noutras ocasiões como tenho dificuldade em escrever sobre discos que não gosto, e como a coisa piora muito quando me apaixono por algum – talvez com receio do ridiculo que são sempre as declarações de amor. É por isso que venho adiando estas palavras sobre Shadows in the Night, o 36º disco de Bob Dylan que nos surpreende com a interpretação nasalada e displicente de dez temas criteriosamente repescados do reportório de Frank Sinatra, um seu antípoda da música popular. 

A estranheza de Shadows in the Night adensa-se ao constatarmos que a grande orquestra tipica de Sinatra foi substituída por uma pequena banda em que se destaca uma desconcertante pedal steel guitar de tonalidades havaianas. No mais, os arranjos são suportados pelo dedilhar da guitarra acústica de Bob Dylan, um contrabaixo e metais esporádicos. O resultado é o encantamento, que ganha laivos de submissão à vigésima audição. Produzido por Jack Frost que o grava "ao natural" - sem remisturas (hoverdubs), nem filtros - a coisa resulta mágica, como se os rapazes estivessem ali mesmo a cantar, a tocar, a respirar, para nós. O modo como foi captado o som produz um extraordinário efeito de presença física, potenciado se o álbum for reproduzido em formato vinil numa boa aparelhagem.
O facto é que um mês depois de ouvir Shadows in the Night, até parece que temas doces e amargos  como "The Night We Called It a Day" , "Why Try to Change Me Now", "Some Enchanted Evening", "What'll I Do" foram criados para a voz de Dylan, melancólico anti-heroi, cowboy rouco e desajeitado, e não para um glamoroso romântico do cinema e do music hall como Sinatra era, com a sua voz poderosa e sensual. Se lá em cima já tiveram a desfaçatez de lhe mostrar este álbum, ele certamente irá perdoar-me o atrevimento desta opinião. Ironicamente, parece-me que a interpretação de  "I'm a Fool to Want You" é o melhor tributo que Bob Dylan poderia fazer ao seu autor, que um dia disse do Rock 'n' Roll ser “a música marcial feita para delinquentes, cantada por cretinos.”  

De resto, o mais importante é comprar este álbum, e usufruir com deleite da Graça de se ter o coração perto duns bons ouvidos.

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publicado às 09:25

Salvé maravilha

por João Távora, em 02.12.13

 

Por aqui andam diabinhos à solta
Com corninhos e rabinhos e falinhas de paraíso
Por aqui andam bruxinhas em volta
Esvoaçando cavalgando em vassourinhas sem juízo*

 

Temos que entender a força inovadora da Banda do Casaco no contexto duma época em que qualquer modo de expressão artística que não contivesse uma mensagem política (de esquerda, claro) estava votada à quase clandestinidade, à mais completa irrelevância artística. Ora é por ocasião da (tardia) reedição da sua discografia que esta mítica banda de música inclassificável (miscelânea de pop, jazz, experimental, étnica) fundada por António Pinho e Nuno Rodrigues, nas últimas semanas emerge da invisibilidade e vem granjeando um mais que merecido reconhecimento por tudo o que é jornal e revista mainstream nacional. Foi neste surpreendente projecto musical que se lançaram as sensuais vozes de Né Ladeiras e Gabriela Schaff, onde pontificaram músicos de excepção como António Emiliano, Carlos Zíngaro, Celso Carvalho, ou até Jerry Marotta, baterista da banda de Peter Gabriel no final dos anos 70. O certo é que quem tenha nascido em Portugal nos últimos trinta anos até há uns meses simplesmente não daria conta da existência da Banda do Casaco cuja obra parecia enterrada num completo esquecimento. 

Pela minha parte estou convencido de que, assim como a grande revolução libertadora do jornalismo em Portugal despontou nos anos oitenta com o semanário "O Independente", o mesmo fenómeno que se deu na música popular na mesma década, em grande parte se deve à Banda do Casaco, cujo reportório bem merece ser conhecido e aproveitado pelas novas gerações.

 

País Porugal (António Pinho)

Hoje há conquilhas, amanhã não sabemos - 1977

 

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publicado às 09:12

Lou Reed - uma homenagem

por João Távora, em 28.10.13

“Não sei se as minhas expectativas são muito altas, sei que são muito difíceis. Quero ser o maior escritor que alguma vez viveu nesta terra de Deus. Falo de Shakespeare, Dostoiévski… Quero ser um escritor que faça rock and roll que se possa comparar a Os Irmãos Karamazov… quero começar a construir um corpo de obras. Sei que posso soar pretensioso e é por isso que normalmente nem digo nada. Prefiro ficar calado.”

 

Lou Reed 1979 em entrevista ao New Musical Express
Via Blitz 

 

Contactei pela primeira vez com as canções de Lou Reed, por volta de 1976 através do seu álbum Lou Reed Live que ainda hoje guardo e que de tão gasto pelo uso no gira-discos mais parece um ovo a estrelar. Porque a vertigem daqueles anos loucos não auguravam um final feliz, o meu fascínio pelo lado selvagem e pela obra de Reed foram esfriando mais tarde. Hoje reconheço que ele foi um dos maiores poetas da decadência ocidental, da cultura urbano-depressiva emanada dos bas-fonds de Grande Maçã, que marcou toda uma geração desassossegada com tanta Liberdade e bem-estar. Foi assim que, por uma questão de sanidade, os valores estéticos que fui recuperando afastaram-me da sua obra, que no entanto mantenho como superior, talvez perpétua.
Depois de há algumas semanas me chocar com a interpretação de Solsbury Hill de Gabriel que eu mal sonhava vir a ser a sua última (generosa) prestação, Lou Reed acaba por se me revelar nestes dias de revisitação, como um autêntico aristocrata da cultura rock and roll, rodeado pela qual eu cresci e me fiz gente. De resto acredito que a misericórdia de Deus é redobrada no que respeita aos poetas e artistas, que da transcendente dor que sustem a sua essência, no acto de libertação que resulta a sua criatividade, de forma tão sublime espelham a matriz divina da espécie humana.  

 

A ler também: O lado selvagem

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publicado às 14:25

A austeridade e a malha no ferro

por João Távora, em 30.03.13


 

Se no auge do “Long play” já era difícil ao mais genial artista ou banda pop publicar quarenta minutos de boas canções, pretender que tal é possível nos mais de sessenta minutos de um CD é no mínimo uma atrevida presunção. 

É este o caso do recém-editado álbum de David Bowie “The Next Day” que a mim, crédulo consumidor, me foi vendido pelos especialistas como o seu melhor desde o fabuloso “Low” ou o histórico “Heroes” e que eu adquiri na versão em vinil constituída por dois discos de 180 gramas primorosamente prensados e por um CD para converter para mp3 e ouvir no carro. A capa é o aproveitamento da de “Heroes”, uma inevitável referência da carreira do “camaleónico” artista, com o título rasurado e um rectângulo branco onde deveria figurar a sua angelical face - uma gracinha demasiado óbvia que pelo menos no tamanho de LP resulta graficamente pouco feliz.

O dinheiro estava gasto, e foi em desassossego que à primeira audição constatei ser esta obra absolutamente anti-social, ttotalmente proibitivo ouvi-la no gira-discos da sala de uma tradicional casa de família como a minha. Antes de ser deixado sozinho reparei nos intimidantes esgares acossados dos meus filhos perante a arritmia ribombante da bateria e dos dissonantes uivos das guitarras distorcidas de Gerry Leonard e de David Torn. 

Não sei se é o melhor álbum dos últimos trinta anos, mas após (des)educado o ouvido para a tarefa, reconheço que há em “The Next Day” muito bom material escondido na violência quase mórbida da maioria dos temas que emergem à volta de “Where Are We Now?”, um oásis melódico no meio duma desarmónica tempestade electrónica. Assim, “Dirty Boys”, “The Stars (Are Out Tonight)”, “I'd Rather Be High”, “Boss Of Me”, “Dancing Out In Space” e “So She” são os meus temas favoritos onde se escondem subtis harmonias bem escavadas numa sonoridade teutónica e austera aparentemente inaudível mas que ao final de algumas audições nos conseguem seduzir profundamente. Com alguma insistência e a atenção devida, a intempestiva densidade sonora presente em todo o álbum revela-nos cuidadosos arranjos de uma rica paleta de timbres e texturas, num ambiente sonoro de desespero gritado pelas palavras e evidenciado na música. Depois fica-nos a pairar a interrogação se afinal a genialidade de David Bowie aos sessenta e seis anos não poderia oferecer-nos também alguma serenidade. E a certeza de que ouvir este disco é um inestimável prazer solitário e fadiga digna dum  servente de obras ao final da empreitada. 

 

 

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publicado às 14:27

Cada maluco sua mania

por João Távora, em 15.01.09

Cada maluco, sua mania!


Acabo de receber via Amazon a minha caixa com os cinco primeiros discos dos Génesis (era Gabrielana) em vinil de 200 gr. Durante o ano de 2007 Tony Banks, Nick Davis and Mike Rutherford empenharam-se no restauro e remistura do som dos primeiros cinco álbuns dos Génesis: Trespass, Nursery Cryme, Foxtrot, Selling England By The Pound e The Lamb Lies Down On Broadway agora disponíveis em DVD e SACD híbrido (compatível com leitores de CD) e... também em vinil numa bela caixa cartonada. Garanto-vos que o som é milagrosamente  espectacular, e que o preço, dada a desvalorização da libra uma agradável surpresa. Agora mais difícil vai ser arranjar tempo para desfrutar o brinquedo novo.

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publicado às 15:13



A montante deste caprichoso prazer de coleccionar os sons antigos e de saborear sofisticados sistemas de reprodução sonora está uma enorme paixão. Neste blog que afinal é uma contradição de termos – uma plataforma de partilha digital em defesa do suporte analógico - presto tributo a essa que considero a mais divinal forma de expressão humana: a música.


O Autor

João Lancastre e Távora nasceu em Lisboa, que adora. Exilado no Estoril, alienado com política e com os media, é sportinguista de sofrer, monárquico, católico e conservador. No resto é um vencedor: casado, pai de filhos e enteados, é empresário na área da Comunicação e do Marketing. Participando em diversos projectos de intervenção cívica, é dirigente associativo e colabora em vários blogues e projectos comunicação política e cultural.

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