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Uma viagem sonora ao Natal do passado

por João Távora, em 31.12.12

No Natal de 1906, a família Wall canta dois temas alusivos

 

Quem acompanha as insignificâncias a que dedico a minha escrita, entende o fascínio que sobre mim exerce este artigo do Daly Mail sobre um avô que resgatou do seu sótão o fonógrafo e uma série de cilindros com as mais antigas gravações sonoras “feitas em casa” até hoje conhecidas. Cerca de 24 minutos de registos diversos, feitos pelos seus antepassados e que inclui impressionante “retrato” duma longínqua festa de Natal de 1902 que aqui reproduzo, foram doados ao museu de Londres. (Para ouvir os ficheiros, clicar na ligação em baixo da respectiva imagem)
 

No Natal de 1904, o Senhor Wall e alguns convivas endereçam votos de Boas Festas

 

Da minha experiência com uma série de cilindros com que este ano fui presenteado - e que aqui deixei testemunho em devida altura - nenhum dos "gravados em casa", (cujas caixas referenciam a anedotas, fados e cantigas) está em condições mínimas de audibilidade, afectados por um fungo que ataca a cera. Em dois deles devidamente assinalados, consegue-se adivinhar cantorias e monólogos, mas para conseguir uma nitidez razoável será necessário investir um dia num sofisticado trabalho de filtragem sonora, com meios e técnicas que não são muito acessíveis. Um projecto que espero cumprir, porque o som é um precioso complemento da imagem... e porque se nos orgulhamos de exibir na sala o retrato do nosso avô, como seria fascinante possuirmos um seu “postal” sonoro como recordação, não vos parece?

 

Nota: 
Agradeço a Victor Santos Carvalho que me fez chegar a "notícia" do Daily Mail

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publicado às 16:52

Outras cantorias

por João Távora, em 22.12.12

Os meus mais de cinquenta anos, muito brio e algum suor permitiram-me gradualmente juntar, além de um sistema estereofónico bastante competente, umas valentes centenas de discos, compactos e vinis, numa criteriosa colecção erigida com gozo e empenho de que me orgulho. É curioso como, através de meios informáticos, tenho-os quase todos convertidos em mp4 ocupando cerca de cinquenta gigabits numa pequena geringonça japonesa, a qual, de modo aleatório, por autor, por faixa, por género ou por álbum, consegue reproduzir integral e interruptamente por mais de uma semana. Chama-se a isto “desmaterialização”, é bom para a “portabilidade” (dá para ouvir no carro) e serve de cópia de segurança (não sei bem de quê).
Mas o que ultimamente me seduz, mais do que o som analógico ou a amplificação a válvulas, é a gravação mecânica, que funciona sempre, seja na praia, no campo ou no deserto, sem pilhas nem corrente eléctrica, sem software nem hardware, só com umas voltas à manivela e uma variedade de valsas, marchas e cantorias literalmente do outro mundo. Reconheço que a amplitude das frequências sonoras resulta bastante limitada, mas até isso tem o seu fascínio, quando ganhamos uma perspectiva mais ampla da efémera música popular, devolvendo à  vida a uma gravação com cem anos, por exemplo de Arthur Collins, um popular barítono americano do princípio do século XX, o "rei do Ragtime". Ou nos deliciamos a escutar Fred Astaire, a cantarolar "Maybe I Love You Too Much" de Irvin Berlin em 1931, antes de se celebrizar como actor e dançarino. E afinal de contas, não é deplorável a qualidade sonora debitada pelos modernos computadores portáteis, com que tanta gente se deleita a explorar músicas no Youtube?

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publicado às 16:45

Coleccionador de sons (21)

por João Távora, em 18.12.12

 

Medley of Buck Dance - Kimmel. Janeiro 1910


Como já referi noutro texto sobre a matéria, a gravação mecânica registava muito mal os graves e os agudos. Nada como uns metais vigorosamente soprados, a voz humana bem entoada... ou um bom tema acordeão para favorecer a clareza duma gravação. Curiosamente, neste registo notam-se levemente uns acordes dum instrumento de cordas que presumo ser um banjo. Se isto não algo proto-jazz, vou ali e já venho.

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publicado às 16:42

Discos e riscos

por João Távora, em 09.12.12


Mother Fuzzy - Charlie Barnet and his Orchestra1945 

 

Se crescemos a vida inteira orgulhosos da ilusão de que somos senhores da nossa construção, dos nossos gostos, das escolhas, políticas, estéticas, literárias e artísticas; é sempre uma renovada surpresa o prazer quase infantil de usufruir a contingência do que nos é simplesmente oferecido. Como os artefactos encontrados no sótão dos avós, ou as descobertas numa (legítima) incursão na biblioteca de um estranho com os seus bibelots, fotografias, livros e músicas. 
Era assim no início antes de ganhar manias e armar aos cucos com critérios musicais, preconceitos literários, mais rebeldes ou conservadores. Quando eu era pequeno, pelos meus cinco ou seis anos, na altura em que o meu padrinho me ofereceu um pequeno transístor que trouxe a telefonia para a minha vida, na casa dos meus avós na Avenida da Liberdade era-me concedido o privilégio de explorar muitas dezenas de discos que eu espalhava pelo chão e escutava num gira-discos “mala” que a minha tia Isabel me deixava “tocar”, como que hipnotizado pelo indolente rodopiar do rótulo colado sobre o vinil. Isso acontecia por tardes inteiras, entre livros do Tintim e antigas encadernações da revista juvenil “Fagulha”, com muitos bonecos e historinhas que se entendiam quase sem saber ler. De resto, havia Adriano Correia de Oliveira, Rita Olivais, Jacques Brel, José Afonso, Música no Coração, My Fair Lady, Oliver Twist, France Gall, Beatles, Bee Gees, e muitos outros “singles” pop, que os discos de música clássica estavam fechados no armário. 
Estas doces memórias vêm a propósito das experiências que o Fonógrafo e a Grafonola recentemente resgatados ao esquecimento num sótão da família me vêm proporcionado. Acontece que os cilindros e os discos antigos que possuo não foram escolhidos por mim em escaparates da FNAC ou dos catálogos da Amazon. São espólios proporcionam uma acriançada experiência de descoberta e puro encantamento… Dentro deste universo de escolhas para as quais não fui tido nem achado, sobra-me o gozo de explorar esta dádiva, um património que revisito, de novo esparramado na carpete, com a indiscrição dum voyeur que embala num progressivo processo de selecção, conversão e… encantamento.
O que vos garanto é que usufruo um indizível prazer na exploração destas gravações fora de uso e sem valor comercial, para, como o coleccionador de borboletas, pacientemente as identificar, admirar e classificar, devolvendo-as à existência, mesmo num som estridente e afunilado, tal qual como soava há cem anos quando, pôr a tocar um disco de 78 rpm, incluía dar à manivela e substituir a agulha, ritual capaz de encantar um salão que por três minutos vibrava em festa. 

Nunca escondi que tenho uma veia audiófila, apenas condicionada pelo bom senso e obvias limitações financeiras. Mas a montante desses caprichos e manias sempre esteve um enorme gosto pela música, por uma eterna sinfonia ou efémera canção.

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publicado às 16:39

Coleccionador de sons (20)

por João Távora, em 06.12.12

Uma graça, esta gravação rara, de O Velho, pela cantora Maria Assaltada do Porto. Era assim a "canção popular" portuguesa do "solidó" no início do século XX. Pelo rótulo assumo que a voz, por estranho que pareça, é duma moça chamada Assaltada, do Porto, com acompanhamento ao piano. O facto do disco ser de 76 voltas indica ser anterior a 1925 quando vingou "normalização" das 78 rpm's (rotações por minuto). 

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publicado às 16:36

Uma efeméride e outras curiosidades

por João Távora, em 06.12.12

 

Foi justamente há 135 anos, a 6 de Dezembro de 1877 que Thomas Edison reproduziu publicamente a primeira gravação da voz humana, a sua própria voz,  recitando "Mary had a Little Lamb" poema infantil atribuído a Sarah Josepha Hale. Aproveito a efeméride para partilhar esta peça rara, uma das primeiras gravações em disco (só com um lado gravado), produzido a 1 de Fevereiro de 1908 (!) pela Victor Talking Machine, o popular tema "National Emblem March" executada pela banda filarmónica de Arthur Pryor's. Nada como uma marcha, onde que impera o pleno vigor dos metais, para que com as limitações técnicas da  época se obtivesse um bom resultado sonoro. 

 

 O reverso do disco 5576 Victor Talking Machine co.

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publicado às 16:32

Coleccionador de sons (19)

por João Távora, em 04.12.12

 

Arthur Francis Collins (1864 - 1933) foi um popular barítono americano do principio do século XX, um dos mais produtivos pioneiros da gravação sonora, conhecido como o “Rei do Ragtime". 

H-A-S-H, Dat am The World I Love é o divertido tema gravado neste Cilindro de Edison - "Indestructible" de 1909

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publicado às 16:29

Coleccionador de sons (18)

por João Távora, em 03.12.12

 

Neste disco da His Master's Voice - Victor, gravado entre 1931 e 1933 podemos ouvir a voz de Fred Astair cantando o refrão do tema "Maybe I Love You Too Much" de Irvin Berlin, pouco antes de se celebrizar como actor e dançarino em glamorosos dramas musicais do tempo em Hollywood se rendia ao prodígio do cinema sonoro.  

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publicado às 16:24



A montante deste caprichoso prazer de coleccionar os sons antigos e de saborear sofisticados sistemas de reprodução sonora está uma enorme paixão. Neste blog que afinal é uma contradição de termos – uma plataforma de partilha digital em defesa do suporte analógico - presto tributo a essa que considero a mais divinal forma de expressão humana: a música.


O Autor

João Lancastre e Távora nasceu em Lisboa, que adora. Exilado no Estoril, alienado com política e com os media, é sportinguista de sofrer, monárquico, católico e conservador. No resto é um vencedor: casado, pai de filhos e enteados, é empresário na área da Comunicação e do Marketing. Participando em diversos projectos de intervenção cívica, é dirigente associativo e colabora em vários blogues e projectos comunicação política e cultural.

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